A intervenção na desordem informacional será um fenômeno em rede

TENTATIVA

Há duas semanas estou diariamente engajada em Moocs sobre a questão da fake news, verificação e checagem. Entre outras coisas úteis e interessantes que aprendi é que não devo usar a expressão fake news ou notícias falsas para me referir ao fenômeno de desordem da informação que estamos vivendo. De fato, a expressão é rasa diante da complexidade dos impactos que o uso manipulado da informação na escala e profundidade de afetação que as tecnologias atuais possibilitam. Diversos estudos mostram sua influência em debates públicos como o Brexit e também na última eleição norte- americana para presidente.

Hoje, no Mooc Como desbancar “fake news” e nunca mais chamá-las por esse nomeoferecido pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas e pela Associação Nacional de Jornais, com o apoio do Google News Initiative, tivemos um fórum com a seguinte questão:

“A desordem da informação no ambiente digital impõe novos desafios para jornalistas, sociedade civil (a começar pelos usuários da internet) e governos. Quais são a seu ver as melhores medidas de curto e longo prazo para se combater falsidades, vazamentos de dados pessoais e o discurso do ódio na Web?”

 Compartilho minha resposta.

Não acredito que um setor isolado, dos que estão diretamente impactados pelo problema, consiga dar conta do fenômeno. Penso que a re-constituição da qualidade nos ecossistemas informacionais é uma tarefa em rede *, não propriamente sob consenso, distribuída (como a própria natureza do fenômeno), criativa e constituída por muitas iniciativas autônomas, de várias escalas – desde ações de um professor numa sala de aula aos grandes projetos e ações do Estado como conjuntos de regras, leis. Será um espaço de invenção e de ressignificação da atividade jornalística, mas não estará restrita aos territórios do jornalismo profissional, já que a produção de conteúdo transbordou desses territórios desde a invenção da web.

Considero que um conjunto de medidas, feitas por atores diversos, cada qual com suas demandas e agendas em relação à degradação que a desinformação provoca no debate público, nos negócios midiáticos, na democracia, nas relações humanas, já estão em curso, e em médio prazo vão mudar o quadro atual que é, podemos dizer assustador, preocupante.

Vejo que as plataformas proprietárias, cujos negócios dependem da confiança dos usuários no seus ecossistemas interativos e informacionais, os governos, os diferentes setores da mídia já estão agindo. Destaco a importância do engajamento das universidades e centros de pesquisas em relação ao fenômeno. Um exemplo: os Moocs que tenho feito e os projetos de em vários centros de jornalismo pelo mundo, por exemplo, o projeto Credibilidade no Brasil. Estamos no susto, mas não estamos paralisados.

Acredito que usuários que desenvolvam a postura e a habilidade de verificar a informação circulante podem ter um impacto muito positivo nos ecossistemas de desinformação , originando uma checagem distribuída, didática e autônoma nas redes.

Já fiz o curso anterior oferecido pelo Knight e fiz também o do First Draft e apesar de não fazer parte de nenhuma universidade, organização educativa, jornalística ou de pesquisa, como jornalista e educadora, penso oferecer atividades de aprendizagem sobre o ecossistema de desinformação, verificação, checagem para diferentes públicos. Por exemplo, frequento, onde vivo, o Centro de Idosos (tenho 66 anos) e lá me ofereci para fazer uma atividade sobre o tema com meus colegas.

O analfabetismo digital da sociedades conectadas é enorme, As plataformas e aplicativos são, em sua maioria, dispositivos feitos para analfabetos digitais, você precisa entender muito pouco sobre o que está fazendo para usar um Facebook, um WhatsApp.

Fiz uma especialização em Tecnologias aplicadas à aprendizagem e meu trabalho de curso foi sobre o Conectivismo. Na perspectiva da sociedade informacional e da aprendizagem em rede, desenvolver as habilidades de lidar com a informação, conseguir aferir sua qualidade e estabelecer uma rede dinâmica de referências e fontes é uma competência estratégica. Numa visão mais ampla, pensando além das notícias falsas, entender a produção da desinformação e aprender a verificação e checagem é desejável.

Minha abordagem vai por aí: constituição de redes de pessoas e organizações habilitadas para lidar de forma ética e criativa com a informação.

* ou a constituição de um conceito de qualidade informacional atualizado com as possibilidades e tecnologias atuais, pois acredito que vai surgir algo novo de tudo isso.

Leia mais sobre o tema:

Será que é verdade?

Desordem informacional

Aprendizagem sobre informações falsas e verificação de fatos nas escolas

Como sobreviver em redes de mentira (palestra prática)

Oficina VERIFICA AÍ! 

 

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Será que é verdade?

A disseminação de notícias e informações falsas e / ou manipuladas deterioram os ambientes dos ecossistemas comunicativos da web social e abalam a confiança dos cidadãos na imprensa, nas instituições, nas lideranças e nas pessoas. Em reação à degradação da qualidade da informação que é disseminada nas redes sociais, plataformas como o Facebook, WhatsApp e Google estão adotando medidas com a intenção de controlar sua disseminação. Da mesma forma, tendo em vista o período eleitoral no Brasil, o tema foi eleito como prioritário pelo Tribunal Superior Eleitoral. Também preocupados com a qualidade da informação durante o período eleitoral, 24 veículos de comunicação estarão trabalhando juntos para lutar contra a desinformação até as eleições presidenciais, por meio do projeto COMPROVA . O tema é bastante polêmico e envolve questões como liberdade de expressão, autoria, democracia, controle de informação, informação e desinformação.

Como jornalista e educadora considero que a degradação dos ecossistemas de informação da web social é uma perda para a sociedade conectada. As plataformas de compartilhamento são ambientes importantes de interação social, comunicação e aprendizagem. No entanto, quando a confiança dos usuários é abalada devido à circulação massiva de informações falsas, manipuladas ou incompletas, todos perdem. Não creio que apenas iniciativas de controle pelo Estado e  por empresas de mídia poderão de fato resolver o problema.

Acredito que usuários que desenvolvam a habilidade de verificar a informação circulante podem ter um impacto muito positivo nesses ambientes, originando uma checagem distribuída, didática e autônoma nas redes. Essas habilidades, uma vez adquiridas,  serão úteis não apenas para verificar informações, mas fazem parte do conjunto de habilidades necessárias para viver na sociedade informacional. Assim, serão benéficas para todos, em especial para os jovens, que estando imersos em universos informacionais, cada vez mais precisarão saber como lidar com a abundância de informação. Por isso, escolhi os estudantes de segundo grau e vestibulandos como público preferencial para a iniciativa que apresento a seguir. Além disso, pela atualidade, é um tema que pode aparecer num vestibular.

Com essa percepção  – uma rede distribuída e autônoma de usuários com habilidade de verificação pode incidir positivamente no problema  – estou propondo um programa educativo para abordagem da questão: a palestra Será que é verdade? e a oficina Verifica aí!.

Atividades educativas

Na PALESTRA, a audiência vai conhecer o conceito de fake news, as diversas formas como é produzido e disseminado nas mídias e redes sociais e dicas para uma checagem rápida. Além disso, vamos conversar sobre o impacto negativo da disseminação de informações falsas para a democracia e para a vida das pessoas.

Na OFICINA Verifica aí!,  o participante aprende a verificar notícias, informações, vídeos, imagens, sites manipulados.  A oficina tem 4 horas de atividade presencial, e 1 hora de tutoria online (atendimento individual ou em grupo) à experiência de  verificação . A ferramenta para a tutoria online será definida com os participantes.

Ambas atividades estão projetadas para que, ao termino de qualquer uma delas, o aprendiz entenda o contexto e a prática da fabricação e da disseminação de informações falsas. Enquanto a PALESTRA apresenta o  tema e instrumentaliza para uma rápida verificação, a OFICINA oferece uma atividade prática de verificação, com tutoria online, aprofundando o tema e a prática da checagem.

A PALESTRA e a OFICINA foram concebidas em duas versões: uma para estudantes do ensino médio e vestibulandos e, aproveitando a oportunidade do ano eleitoral, outra para políticos e candidatos. Conteúdos específicos serão acrescidos conforme os públicos.

Acredito que essas atividades podem ser úteis para qualquer cidadão.

Ficou interessado? Entra em contato: viviamaralsp@gmail.com

CINCO IDEIAS CONECTIVISTAS

O contexto de aprendizagem da sociedade em rede, como explica Siemens (2004), é formado por ambientes e processos em que o conhecimento não é mais adquirido de forma linear e sequencial. As mudanças tecnológicas que aconteceram e continuam acontecendo na produção, armazenamento e distribuição da informação, impactaram e impactam profundamente as formas de aprender e ensinar, considerando-se que uma das principais estratégias educativas é a transmissão da informação. Como o conhecimento e a informação atualmente são recursos ubíquos, há abundância deles e acesso facilitado, a estratégia instrucional baseada na transmissão de conteúdos já não é suficiente nem adequada para formar pessoas que vão viver e produzir na sociedade informacional, global e em rede.

Além do volume da informação e da velocidade de sua atualização, outras características da sociedade informacional, como a conectividade distribuída e consequentemente o estímulo permanente à interação e à vida em rede também impactam criticamente o campo educacional e a escola tradicional.

O Behaviorismo, o Cognitivismo e o Construtivismo, teorias pedagógicas que inspiram e fundamentam em grande parte o sistema educacional formal consideram o conhecimento como um objeto ou estado a ser alcançado através do raciocínio ou da experiência. Segundo Siemens, estas teorias têm como dogma central que a aprendizagem ocorre dentro da pessoa, que é uma experiência interna. Contrapondo essa abordagem, ele procura mostrar o que é único na perspectiva conectivista e destaca cinco ideias.

Mudanças no Facebook

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Imagem do clipe “Are you lost in the world like me?

O Facebook está testando novas mudanças no feed buscando privilegiar as informações relacionadas à vida pessoal dos seus usuários (amigos e familiares) e diminuindo a visibilidade da disseminação de notícias (da imprensa profissional). Estou buscando entender com mais profundidade a razão desta escolha e intervenção. Até agora li dois artigos sobre isso: o da Veja (24 de janeiro de 2018) e o de Outras Palavras  (17.01.2018).

Zuckerberg alega que “o Facebook é sobre conexões pessoais”. (E as Páginas e toda aquela mídia invasiva?).

Do ponto de vista da produção de conteúdo e da comunicação jornalística digitais, tenho observado o surgimento de articulações variadas para livrar a web da degradação provocada pela disseminação de informação fake e discursos de ódio.  É um movimento crescente. A qualidade do ambiente que as plataformas oferecem é um problema para as corporações proprietárias, pois quem quer frequentar um ambiente onde o ruído estressa constantemente a interação? Isso é um desafio sério em qualquer plataforma de rede atualmente. No Brasil, o Facebook (a que mais uso) se tornou um ecossistema de informação muito poluído. Se o usuário tem alguma pretensão de conteúdo confiável é obrigado atualmente a gerir uma grande quantidade de lixo informacional diariamente e fazer checagem inúmeras vezes. É claro, sempre podemos eliminar “amigos” que não tem cuidado com a informação, mas que sentido teria isso?  Muito se tem falado sobre a criação de bolhas narcisistas nas redes  sociais e como isso limita nossa visão de mundo. Acredito que esse esforço constante por um conteúdo  de qualidade pode levar muitas pessoas a abandonarem a plataforma, já que para comunicar com a família e amigos, o WhatsApp é muito bom.

Mas se “limpar o ambiente” for a preocupação de Zuckerberg, parece que a iniciativa é um tiro contra. Conforme o artigo da Veja, pesquisa realizada  por um jornalista (o artigo não cita o nome do jornalista nem oferece acesso à pesquisa) na Eslováquia, um dos cinco países em que o novo algoritmo do feed está sendo testado, mostra que a medida provocou  a queda do acesso via Facebook aos sites de órgãos jornalísticos em 39% , e que a disseminação  de notícias falsas e discurso de ódio  apresentou percentual de queda menor, sendo menos afetada: 27%.

O artigo de Chris Taylor em Outras Palavras relaciona a iniciativa a formas de controle e manipulação, tendo como referências as distopias 1984  (George Orwell) e Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley).  Taylor apresenta dados que mostram  que  67% dos estadunidenses acessaram notícias nas mídias sociais — um aumento de 5% em relação ao ano anterior. No Facebook, 68% dos usuários acessaram notícias a partir do feed e a maioria dos norte-americanos com mais de 50 anos passou a acessar notícias a partir das mídias sociais (Pew Research Center). Levanta a seguinte questão: Tornar-se a maior fonte de informações e depois simplesmente sumir com as notícias não é apenas uma escandalosa recusa de responsabilidade cívica. É também parte do manual da distopia.

A medida  ainda não foi implantada, está em fase de testes. O  problema é bem complexo, há questões políticas e culturais profundas envolvidas em qualquer intervenção realizada nos padrões de interação e disseminação de informação num ecossistema comunicacional com 2 bilhões de usuários. Por isso vale a pena ficar a atento a essa alteração, seus desdobramentos e impactos.

E lembrar que conexões pessoais dependem de nossa capacidade de criar vínculos e não de algoritmos.

Centralização, descentralização e distribuição

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Topologia de redes , desenho de Paul Baran.

Rafael Ummus colocou algumas questões muito estimulantes em artigo sobre redes operativas que publiquei no Linkedin (o mesmo que publiquei aqui). Acabou inspirando novo texto sobre o tema. Não é propriamente uma resposta,  mas uma exploração da pergunta.

A pergunta:

Rafael Eichemberger Ummus 1º
Consultor

Legal Vivianne ! Faz sentido para mim. Uma curiosidade: o que aconteceu com o padrão de organização das redes que você acompanhou ao longo do tempo e do desenvolvimento delas ? Desconfio que em muitos casos os padrões de interação e de fluxos de informação passam de descentralizados ou distribuídos para mais centralizados à medida que o coletivo captura e processa mais recursos.


Sobre as topologias, padrão de organização e fenômenos interativos 

Quando vemos o desenho sobre topologias de redes, de autoria de  Paul Baran, que está no início do texto,  com uma imagem de rede ao lado da outra, podemos cair na tentação de pensar que o conjunto de topologias  faz referência a uma linha evolutiva de desenvolvimento em que uma rede centralizada evolui para descentralizada e depois para distribuída. Mas não é isso que acontece.

Do ponto de vista das rede sociais humanas, cada topologia encerra uma visão específica de mundo e de poder.  As topologias de interação geram ambientes sociais essencialmente comunicativos. Assim, o padrão da topologia incide e é expressado diretamente na organização (espontânea naquele contexto) do fluxo da informação e da comunicação e no processo de decisão vigentes na comunidade que se  constitui nas interações. A topologia da interação gerada pelo ambiente, normas e regulações em geral, e grau de distribuição da interação configuram os fenômenos interativos (sociais) que acontecem no ambiente. Por isso é importante entender a questão das topologias de rede. Cada topologia é um padrão comunicativo, de convivência, dá origem a um tipo determinado de fenômenos social. 

Virtualmente, o padrão é um conjunto de princípios, um determinado desenho de ordenamento dos fluxos entre os elementos conectados de um sistema. No caso das redes, ele se atualiza em estrutura, em situação e tempo presente. As relações entre o padrão e sua atualização, a estrutura de determinado fenômeno e o próprio fenômeno, são recursivas, imbricadas. A atualização é o aqui-agora, situação em que o padrão se corporifica, toma uma forma, na interação das pessoas com as pessoas,  com o contexto objetivo e subjetivo em que está sendo acionado, vivido. Não há um modelo de rede, o que temos é um conjunto de princípios (padrão/topologia) que vai dando origem a estruturas muito plásticas, caminhos de fluxo entre pontos conectados. É pura imaterialidade.

Os princípios mais gerais do padrão rede, quando aplicados às interações humanas, são interdependência, ordem emergente, comunicação distribuída e recursiva, auto-organização e a existência de pelo menos um “objeto”. Pierre Lévy (O que é o virtual. 2005: 123) denomina “objeto” o elemento de ligação dinâmica do sujeito coletivo, que dá ensejo à colaboração. Para desempenhar seu papel antropológico, o objeto deve passar de mão em mão, de sujeito a sujeito e subtrair-se à expropriação territorial, a identificação a um nome, à exclusividade ou à exclusão.

O autor considera que a relação com o “objeto” resulta de uma virtualização das relações de predação, de dominância e de ocupação exclusiva. O “objeto” pode ser identificado através de seu poder de catálise das relações sociais e de indução da inteligência coletiva. Ele traça as relações mantidas pelos seres humanos uns frente aos outros. Sua dinâmica como mediador da inteligência coletiva implica sempre num contrato, uma regra, uma convenção.

Os objetivos , princípios, metas que mobilizam a articulação das redes podem ser considerados “objetos” na medida em que funcionam como vetores da integração, pois são adotados por muitos, compartilhados e mobilizam as pessoas para a interação e incidências variadas. São atratores, aproximam por afinidade. Da mesma forma, as agendas compartilhadas, as tarefas.

Mudanças de padrão

É fácil passar de rede descentralizada para centralizada,  pois o DNA de ambas tem muita coisa em comum. Objetivamente, o ponto comum é que organização depende de controle.  A ideia que para organizar é necessário centralizar (ideia recorrente nos processo coletivos) é um equívoco, pois hoje em dia, com a ubiquidade e possibilidade de contato em tempo virtual, com a possível transparência e acesso aberto (e em tempo real)  à informação e conhecimento produzidos nos processos, não se justifica mais. As tecnologias sociais e telemáticas existentes atualmente permitem que seja experimentada a organização emergencial, que necessita padrões de interação mais distribuídos que descentralizados para acontecer.

O que provoca a centralização é a cultura política das pessoas que integram determinada rede, não a existência ou falta de recursos financeiros.  A cultura política que temos é que desenha, que oferece o repertório de soluções que usamos a cada instante no que estamos fazendo. É um repertório, um conjunto de narrativas que carregamos. É instrumental, operativo. Vai definir como atuamos a cada situação.

Um fenômeno essencial a ser entendido sobre a diferença entre redes descentralizadas e redes distribuídas é a questão da ordem emergente.  Nas redes descentralizadas usualmente replicamos as estruturas das organizações verticalizadas: coordenação, assembleias, decisão por consenso, pensamento único, lideranças como função fixa; cadeias de representação criando força política concentrada,  todos podem ser elementos que distorcem o campo social da rede, verticalizando as relações. As metodologias de planejamento e coordenação baseadas no controle, a prática da representação e toda a concentração de poder individual que ela gera; a ideia do pensamento único, a abordagem dilemática são o que conhecemos como experiência política e reproduzimos. As decisões e iniciativas passam pela aprovação de alguma camada da rede, normalmente constituída por representação e presença.  

Para sair do descentralizado para o distribuído precisamos de uma des-educação política. Uma abertura para conhecer e experimentar outra cultura de atuação. Implica em aprendizagem de novas formas de sociabilidade e de ação política. 

A ordem emergente caracteriza os sistemas abertos e as redes distribuídas. A auto-organização é função da emergência que acontece no tecido das conexões. Sinto que até agora não temos uma boa forma  (que esclareça o conceito ) para expressar, para nomear a diferença do que acontece numa situação / rede descentralizada e numa situação / rede distribuída. Opor emergência à participação como fenômeno interativo não me parece esclarecedor, pois o comportamento participativo também acontece  num processo que se constitui de forma emergente: em algum momento depois que decidimos em relação ao que emerge em dada situação, estaremos participando da construção de um solução, ou respostas ou…

Quando  estamos num regime de interação aberta e mais distribuída que centralizada, as decisões, as respostas e as perguntas surgem no processo da interação. As pessoas falam por si, não há representação. Há pluralidade de vozes. Não estamos seguindo um roteiro pré-definido à interação das pessoas. Tudo deriva da presença.  A diversidade de pensamentos constitui riqueza e não um problema. A diversidade de pensamentos não é vista como algo que deve ser reduzida por práticas de consenso e votação.  Há muitos caminhos para resolver  as demandas. O ambiente é de abundância de possibilidades. O espaço de liderança é dinâmico. O sistema é dominado pelo espírito cooperativo.

Cabe destacar que Rafael coloca um elemento muito importante na configuração dos processos que é o financiamento das ações. O terceiro setor é prisioneiros do projetismo e o design dos financiamentos configura as organizações. Elas se ajustam. Principalmente porque estão viciados na ideia de planejamento fechado, cadeias de representação e viver na escassez.

Mas pode ser diferente:

Las fuerzas de la abundancia incluyen no solo las tecnologías de producción material como la micro-manufactura, sino nuevas formas sociales de organizar la producción – ética hacker, producción entre pares basada en el comunal, información libre y colaboración horizontal. Desarrollar esta nueva sociedad dentro de la cáscara de la antigua implica expandir las líneas de la filé a partir de los nodos ya existentes.

Kevin Carson, C4SS /  Manifesto Comunero

 

 

 

 

Redes operativas

No final de agosto, tive a oportunidade de participar do curso “Gestão de Redes de Agroecologia: Interação para o desenvolvimento rural sustentável”, organizado pela Rede de Agroecologia do Leste Paulista. O curso aconteceu na Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna, interior de São Paulo. Eu participei com o tema “Princípios da organização em rede e da cooperação em processos coletivos“.

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Aula no curso da Rede de Agroecologia do Leste Paulista, em agosto de 2016.

O movimento de agroecologia, como a maioria dos movimentos sociais brasileiros, atua com redes descentralizadas, ou mais descentralizadas que distribuídas.  Estas redes eu chamo de redes operativas, conceito que comecei a desenhar em 2009 e que reencontrei nos meus escritos mais antigos quando fui preparar o material para o curso. O conceito é um recorte que faço no campo das redes sociais. Pode até ser considerado uma abordagem equivocada ou/e conservadora diante da ciência de redes e da fenomenologia da interação. No entanto, nos 19 anos em que trabalho com processos organizativos em rede,  poucas vezes encontrei redes mais distribuídas que descentralizadas, não porque sejam inviáveis ou difíceis, ou insustentáveis, mas sim porque a cultura política da militância e da participação predominam nos processos de articulação. O conceito permite pensar e desenhar governança em redes existentes principalmente no Terceiro Setor e faz sentido para  um grande número de pessoas envolvidas em estruturas organizativas descentralizadas.

Observação: As redes mais distribuídas que encontrei estão nos ambientes relacionados às tecnologias digitais, inovação e criatividade.  E as experiências de produção conjunta em processo auto-organizado e interativo que tive foram em pequenos grupos.

Redes operativas

A expressão aparece no livro Redes: uma introdução às dinâmicas da conectividade e da auto-organização,  de Cássio Martinho,  quando ele faz uma distinção de tipos de redes: “Quanto ao escopo da ação, as redes também podem ser classificadas em dois tipos gerais: redes de troca de informação e redes operativas.”

No livro, Martinho caracteriza as redes de troca de informação como aquelas cuja ação é constituir um ambiente de troca de informações, veiculação de notícias, intercâmbio de conhecimento. Já as redes operativas seriam as que desenvolvem estudos e pesquisas, estabelecem e conduzem processo de interlocução e negociação política, acompanham políticas públicas, promovem capacitações e formação, atuam na defesa de direitos sociais e causas coletivas e, no caso das redes de economia solidária, produzem e distribuem bens.

Por volta de 2009, re-editei o conceito, incluindo a distribuição e compartilhamento de informação como uma atividade das redes operativas e incorporando a comunicação telemática, intensamente presente no fenômeno das redes atuais e que lhes confere características distintas daquelas redes sociais que não a utilizam. São redes sociotécnicas, um hibridismo entre teias de interação social e tecnologia de comunicação assistida por internet, que possibilita crescente grau de conectividade e amplia a possibilidade de distribuição da comunicação. Por isso, seu hibridismo alcança também a convivência de práticas mais distribuídas com outras que tendem à centralização.

Ficou assim:

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Como estamos desabilitando a cooperação (na infância)

Trabalhando  na produção do roteiro de aprendizagem para o curso “Dinâmicas da cooperação” , debruço-me  atenta sobre Juntos, do Richard Sennet, um dos livros que me inspiraram a oferecer o curso e lá aprendo  sobre como estamos desabilitando culturalmente a habilidade de cooperação em nossas crianças.

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Os bebês e as crianças até a idade escolar exploram intensivamente a cooperação  como estratégia de aprendizagem. Quando entram na escola tem início um processo de desabilitação da cooperação via a experiência da desigualdade.  A desigualdade e vivenciada  no ambiente escolar de duas formas: a separação das crianças em classes diferenciadas por habilidades e capacidade e  com a percepção da desigualdade econômica e social e tudo que vem junto com ela. Em relação ao primeiro item,  nos EUA e Grã- Bretanha, até o século XIX as crianças não eram diferenciadas como atualmente, ficavam na mesma sala até  a adolescência. Na França e Alemanha até o século XVII, as crianças ficavam misturadas até o início da adolescência. Tudo isto começa a ser internalizado e naturalizado pelas crianças.

Desta forma, por volta dos 10 anos, a habilidade social infantil para a cooperação pode ser comprometida pelos fatos econômicos e pela instituições sociais, que moldam o senso de individualidade. Uma das maneiras como isso acontece na nossa sociedade é o consumo.  Acontece facilmente quando a desigualdade já está internalizada, tanto para os que se sentem “superiores” como para os que são “inferiores”.  O marketing convence a infância e a adolescência de que ela é o que possui. São vários tipos de consumo atacando a criança (e seus pais): o consumo médico (a medicalização da infância e da adolescência),  remédios, brinquedos, roupas, lazer, acesso à tecnologia, moradia (condomínios como ilhas). Todos estes consumos vão constituindo as crianças e as diferenciando.

A comparação odiosa  explora o sentimento de inferioridade, por meio  de desdém, exclusão, brincadeiras, humilhações.  O marketing investe  na fantasia que a posse de objetos e o acesso a coisas e serviços pode  proporcionar sentimento de reconhecimento.  E se você não pode comprar?

Há um enunciado óbvio para esta situação: eu sou melhor que você. Há um enunciado silencioso, interno, sutil  desta situação: Você não me vê, eu não conto para você porque não sou bom.  E o ressentimento cresce nutrindo um certo senso de individualidade , marcado pelo sentimento de inferioridade. De novo aqui, a solução que a sociedade de mercado oferece é o consumo de objetos de status para aplacar o ressentimento. Mas ressentimento e sentimentos de inferioridade comprometem a cooperação, desabilitando  habilidades sociais cooperativas.

Eu já tinha observado a desabilitação da cooperação pelo sentimento de  inferioridade e ressentimento em ambientes / relações de trabalho, em post que  fiz na Escola de Redes, em 2010: Pensando sobre cooperação.

A aprendizagem sobre Dinâmicas da Cooperação vai criar uma oportunidade para refletirmos e cocriarmos sobre  várias questões como esta.