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Será que é verdade?

A disseminação de notícias e informações falsas e / ou manipuladas deterioram os ambientes dos ecossistemas comunicativos da web social e abalam a confiança dos cidadãos na imprensa, nas instituições, nas lideranças e nas pessoas. Em reação à degradação da qualidade da informação que é disseminada nas redes sociais, plataformas como o Facebook, WhatsApp e Google estão adotando medidas com a intenção de controlar sua disseminação. Da mesma forma, tendo em vista o período eleitoral no Brasil, o tema foi eleito como prioritário pelo Tribunal Superior Eleitoral. Também preocupados com a qualidade da informação durante o período eleitoral, 24 veículos de comunicação estarão trabalhando juntos para lutar contra a desinformação até as eleições presidenciais, por meio do projeto COMPROVA . O tema é bastante polêmico e envolve questões como liberdade de expressão, autoria, democracia, controle de informação, informação e desinformação.

Como jornalista e educadora considero que a degradação dos ecossistemas de informação da web social é uma perda para a sociedade conectada. As plataformas de compartilhamento são ambientes importantes de interação social, comunicação e aprendizagem. No entanto, quando a confiança dos usuários é abalada devido à circulação massiva de informações falsas, manipuladas ou incompletas, todos perdem. Não creio que apenas iniciativas de controle pelo Estado e  por empresas de mídia poderão de fato resolver o problema.

Acredito que usuários que desenvolvam a habilidade de verificar a informação circulante podem ter um impacto muito positivo nesses ambientes, originando uma checagem distribuída, didática e autônoma nas redes. Essas habilidades, uma vez adquiridas,  serão úteis não apenas para verificar informações, mas fazem parte do conjunto de habilidades necessárias para viver na sociedade informacional. Assim, serão benéficas para todos, em especial para os jovens, que estando imersos em universos informacionais, cada vez mais precisarão saber como lidar com a abundância de informação. Por isso, escolhi os estudantes de segundo grau e vestibulandos como público preferencial para a iniciativa que apresento a seguir. Além disso, pela atualidade, é um tema que pode aparecer num vestibular.

Com essa percepção  – uma rede distribuída e autônoma de usuários com habilidade de verificação pode incidir positivamente no problema  – estou propondo um programa educativo para abordagem da questão: a palestra Será que é verdade? e a oficina Verifica aí!.

Atividades educativas

Na PALESTRA, a audiência vai conhecer o conceito de fake news, as diversas formas como é produzido e disseminado nas mídias e redes sociais e dicas para uma checagem rápida. Além disso, vamos conversar sobre o impacto negativo da disseminação de informações falsas para a democracia e para a vida das pessoas.

Na OFICINA Verifica aí!,  o participante aprende a verificar notícias, informações, vídeos, imagens, sites manipulados.  A oficina tem 4 horas de atividade presencial, e 1 hora de tutoria online (atendimento individual ou em grupo) à experiência de  verificação . A ferramenta para a tutoria online será definida com os participantes.

Ambas atividades estão projetadas para que, ao termino de qualquer uma delas, o aprendiz entenda o contexto e a prática da fabricação e da disseminação de informações falsas. Enquanto a PALESTRA apresenta o  tema e instrumentaliza para uma rápida verificação, a OFICINA oferece uma atividade prática de verificação, com tutoria online, aprofundando o tema e a prática da checagem.

A PALESTRA e a OFICINA foram concebidas em duas versões: uma para estudantes do ensino médio e vestibulandos e, aproveitando a oportunidade do ano eleitoral, outra para políticos e candidatos. Conteúdos específicos serão acrescidos conforme os públicos.

Acredito que essas atividades podem ser úteis para qualquer cidadão.

Ficou interessado? Entra em contato: viviamaralsp@gmail.com

Mudanças no Facebook

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Imagem do clipe “Are you lost in the world like me?

O Facebook está testando novas mudanças no feed buscando privilegiar as informações relacionadas à vida pessoal dos seus usuários (amigos e familiares) e diminuindo a visibilidade da disseminação de notícias (da imprensa profissional). Estou buscando entender com mais profundidade a razão desta escolha e intervenção. Até agora li dois artigos sobre isso: o da Veja (24 de janeiro de 2018) e o de Outras Palavras  (17.01.2018).

Zuckerberg alega que “o Facebook é sobre conexões pessoais”. (E as Páginas e toda aquela mídia invasiva?).

Do ponto de vista da produção de conteúdo e da comunicação jornalística digitais, tenho observado o surgimento de articulações variadas para livrar a web da degradação provocada pela disseminação de informação fake e discursos de ódio.  É um movimento crescente. A qualidade do ambiente que as plataformas oferecem é um problema para as corporações proprietárias, pois quem quer frequentar um ambiente onde o ruído estressa constantemente a interação? Isso é um desafio sério em qualquer plataforma de rede atualmente. No Brasil, o Facebook (a que mais uso) se tornou um ecossistema de informação muito poluído. Se o usuário tem alguma pretensão de conteúdo confiável é obrigado atualmente a gerir uma grande quantidade de lixo informacional diariamente e fazer checagem inúmeras vezes. É claro, sempre podemos eliminar “amigos” que não tem cuidado com a informação, mas que sentido teria isso?  Muito se tem falado sobre a criação de bolhas narcisistas nas redes  sociais e como isso limita nossa visão de mundo. Acredito que esse esforço constante por um conteúdo  de qualidade pode levar muitas pessoas a abandonarem a plataforma, já que para comunicar com a família e amigos, o WhatsApp é muito bom.

Mas se “limpar o ambiente” for a preocupação de Zuckerberg, parece que a iniciativa é um tiro contra. Conforme o artigo da Veja, pesquisa realizada  por um jornalista (o artigo não cita o nome do jornalista nem oferece acesso à pesquisa) na Eslováquia, um dos cinco países em que o novo algoritmo do feed está sendo testado, mostra que a medida provocou  a queda do acesso via Facebook aos sites de órgãos jornalísticos em 39% , e que a disseminação  de notícias falsas e discurso de ódio  apresentou percentual de queda menor, sendo menos afetada: 27%.

O artigo de Chris Taylor em Outras Palavras relaciona a iniciativa a formas de controle e manipulação, tendo como referências as distopias 1984  (George Orwell) e Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley).  Taylor apresenta dados que mostram  que  67% dos estadunidenses acessaram notícias nas mídias sociais — um aumento de 5% em relação ao ano anterior. No Facebook, 68% dos usuários acessaram notícias a partir do feed e a maioria dos norte-americanos com mais de 50 anos passou a acessar notícias a partir das mídias sociais (Pew Research Center). Levanta a seguinte questão: Tornar-se a maior fonte de informações e depois simplesmente sumir com as notícias não é apenas uma escandalosa recusa de responsabilidade cívica. É também parte do manual da distopia.

A medida  ainda não foi implantada, está em fase de testes. O  problema é bem complexo, há questões políticas e culturais profundas envolvidas em qualquer intervenção realizada nos padrões de interação e disseminação de informação num ecossistema comunicacional com 2 bilhões de usuários. Por isso vale a pena ficar a atento a essa alteração, seus desdobramentos e impactos.

E lembrar que conexões pessoais dependem de nossa capacidade de criar vínculos e não de algoritmos.

Virtualidades e redes

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Este vídeo é parte  do material produzido pelo  Mario Salimon  para o filme  “Hierarquia: conversas depois do fim de um mundo”. Foi gravado no Laboratório de cocriação da Escola de  Redes, em São Paulo, em janeiro de 2012.

Na entrevista falo sobre minha experiência trabalhando com redes no terceiro setor e também no governo. Na parte final,  faço uma digressão sobre questões relativas à virtualidade e à imaterialidade  da vida contemporânea e sobre a importância do design  de interfaces tecnológicas e como estas impactam nos processos  de interação.

Vivianne Amaral – Entrevistas-base do filme Hierarquia: conversas depois do fim de um mundo. from Mario Salimon on Vimeo.

Mais que resistência, invenção

A Baia Hacker com o tempo se configura como um laboratório social, uma plataforma social, que dá suporte, acolhe, a exploração intensa da interação e do que ela pode produzir, ali, localmente, no microcosmos das redes de convivência que abrangem mais que Itu, pois vivemos num continuum comunicacional, um território virtual entre conectados. A Baia é um laboratório hacker, um projeto da Cria Corpo, empresas ( CriaSolo, Instituto Cidade Jardim, Usimetal, Solid Products  Sinapse, entre outros) e pessoas parceiras num programa da incubadora da Prefeitura de Itu.

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Foto: Daniela Noronha

O desafio é como podemos criar e sustentar um ambiente amigável, que acolha as pessoas e seus diferentes interesses, de forma que possa ancorar iniciativas econômicas e de aprendizagem que não sejam mediadas apenas pela sociabilidade de mercado e  da produtividade.

Muitas das pessoas que convivem lá têm passagens por organizações não governamentais, movimentos sociais, redes. Muitos são pequenos e micro empreendedores, com idade, variando de 20 a 60 anos. Pessoas cuja visão de negócios está relacionada à felicidade, saúde e bem comum e cujas atividades em grande parte podem ser enquadradas no que hoje se chama de economia criativa (comida, pintura, comunicação, fotografia, música, arte, criação, design…). Uma classe média bem brasileira, pouco dinheiro, pequenos negócios e muita colaboração entre as pessoas para viabilizar ideias e projetos.

Não é aquela turma das startups, do empreendedorismo de prêmios, que viaja pelo mundo, aparece nos TEDS.  Há muita potência, mas são pessoas comuns, produzindo a vida, em cidades interioranas, onde novas formas de viver e ganhar a vida precisam de nichos para se desenvolver, pois prevalece  um certo provincianismo.

Tudo isto ficou muito claro para mim com a realização do Sarau Hacker que reuniu a comunidade que frequenta e gira em torno do espaço da Baia. Lá,  saquei que uma das melhores coisa que uma política pública interessada em impulsionar a economia criativa pode fazer é garantir espaços (e se possível, equipamentos)  para que os pequenos e frágeis negócios se instalem e se desenvolvam. Neste espaços, sem ter que pagar aluguel e com alguma estrutura e gestão que respeite a autonomia e o bem comum, as pessoas podem ter a liberdade e a oportunidade de inventar, encontrar parceiros, aprender a empreender, errar e ser solidários.

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Assim como a Baia Hacker, pelo que vejo no Facebook, que é a rede social que frequento diariamente, há inúmeros espaços de convivência com este espírito acontecendo no Brasil.  Neles , passamos da resistência à invenção de novas formas de viver em sociedade. São experiências frágeis, experimentais, muitas vezes precárias.  São na maior parte das vezes invisíveis para as politicas públicas. Neles passamos da resistência à invenção de novas formas de viver em sociedade. São experiências comunitárias vitais.

Produzir a vida

Uma iniciativa que nasceu de indagações sobre as profundas alterações que vi  acontecerem no mundo do trabalho e na produção cotidiana da existência. Refletir e investigar o cenário contemporâneo do mundo do trabalho e suas tendências foi o que propus ao Instituto CPFL. Os eventos do Café Filosófico aconteceram no mês de abril de 2014,  com a participação de Giuseppe Cocco com o tema A nova composição do trabalho (11.04), Silvio Meira abordando Novas profissões, novas oportunidades ( 23.04) e  Augusto de Franco refletindo sobre  Viver em rede e viver da rede (25.04).

Mundo em transição

A pós modernidade tem entre suas características profundas mudanças no mundo trabalho. Na transição do fordismo (apoiado no paradigma da grande indústria) ao pós-fordismo (fundamentado no paradigma do conhecimento e na produção colaborativa) o trabalho deixou de ser o que era: uma carreira estável, aquelas horas separadas da vida, uma atividade gerida pela competição, uma profissão para sempre. O trabalho imaterial , globalizado e organizado em redes integradas de produção e circulação, emerge e flui na rede social dos cérebros conectados intensivamente pelas tecnologias, produzindo assim novas necessidade e subjetividades.

As mudanças provocam deslocamentos e desarranjos profundos, com impacto nas instituições tradicionalmente ligadas à formação e administração dos trabalhadores, como as educacionais e de treinamento profissional, partidos políticos, sindicatos e na gestão da vida pessoal. As dinâmicas produtivas são caracterizadas pela articulação social de novos fatores estratégicos de atividades imateriais de planejamento, comunicação, marketing, design e a educação (formação).

Segundo Cocco , longe de desaparecer, o trabalho não para de se difundir no espaço e no tempo: nos territórios desenhados pelas redes sociais de cooperação, num tempo definido pela recomposição de tempo de vida e tempo de trabalho.

Vídeo da apresentação de Giuseppe Cocco, em 11 de abril de 2014, no Café Filosófico.

A sociedade atual é um mundo híbrido, onde convivem formas tradicionais e formas avançadas, atualizadas, de produção, circulação e distribuição das mercadorias e da riqueza. A dinâmica da socialização da produção da riqueza e a integração da dimensão comunicacional como interface entre a produção e o consumo são elementos da transformação. A transformação da matéria pelo trabalhador individual (inclusive quando ele continua no chão de fábrica) depende das dinâmicas imateriais: comunicativas, linguísticas, afetivas, ou seja, as atividades da mente e da mão de um trabalhador de carne e osso: o trabalho vivo.

Emprego e empregabilidade: novas profissões

No entanto, apesar da profundidade das mudanças, nada foi totalmente descartado. O ecossistema cultural globalizado atual é um espaço-tempo onde diferentes configurações produtivas coexistem. Assim as contradições são constitutivas dos arranjos e des-arranjos que emergem desta copresença.

Vídeo da apresentação de Sílvio Meira, em 25 de abril, no Café Filosófico

Giuseppe Cocco, em suas investigações sobre as transformações globais do pós-fordismo, destaca que hoje o trabalho envolve a vida como um todo. O sistema de produção precisa mobilizar até a alma do trabalhador: sua capacidade comunicativa, seus afetos, suas redes sociais. O emprego é precário, intermitente, terceirizado, autônomo. No entanto, mesmo quando o trabalho acontece fora da relação de emprego (por exemplo, na circulação, nas redes, no consumo), ele continua sendo regido pelas instituições da sociedade salarial (desde o seguro desemprego até as leis sobre o copyright).

O tipo humano adequado às exigências dos novos tempos é a pessoa de desempenho que incorpora valores da autonomia e da inovação constante. Ele desafia, pesquisa, cria formas de convivência solidária e tem resiliência suficiente para tomar constantemente decisões diante de demandas que surgem e assumir novas responsabilidades. Está em permanente processo de formação, de qualificação e desenvolvimento de suas habilidades com vista a melhorar performance no mercado. Vive conectado, é disponível à interação e suas redes de relação são tratadas como um importante ativo. Tem grande mobilidade, pode trabalhar em qualquer lugar onde seus conhecimentos se façam desejáveis. Segundo Gorz (2005), no capitalismo imaterial, ‘A pessoa é uma empresa’. No lugar da exploração entram a auto exploração e a auto comercialização do ‘Eu S/A’, que rendem lucros às grandes empresas, que são clientes do auto empresário. É um agenciamento permanente da vida e da subjetividade. Nem todos concordam e procuram linhas de fuga, trilhas novas, fissuras onde possam construir formas mais significativas e fraternas de viver.

Novos mundos

A questão central é que tudo acontece em redes tecnológicas internas e externas às organizações. Colaboração e cooperação são mantras. Esta condição material da produção (pessoas autônomas conectadas em redes telemáticas produzindo valor colaborativamente e intensiva circulação de informação) configuram, além do ecossistema de produção no capitalismo cognitivo, as condições de investigação e realização de novas formas de convivência e de organização que procuram escapar do domínio capitalista ou pelo menos subverter suas dinâmicas de apropriação. São novos mundos que emergem e desafiam todos com a necessidade de produção de novas subjetividades que respondam aos desafios e transformações no campo do trabalho e de produção da vida.

Vídeo da apresentação de Augusto de Franco, em 29 de abril de 2014, no Café Filosófico.

Diante das desigualdades e insegurança crescentes provocadas pela globalização das novas formas de exploração, muitos, no mundo todo, resistem a um existência passiva de produção e consumo no automatismo das redes globais. Perguntam-se como configurar outra sociedade, como gerar e sustentar modos alternativos de cooperação e de produção auto organizada das necessidades coletivas. A busca por uma vida significativa para si e para as comunidades em que convivem emerge (possivelmente) como um dos resultados da mobilização intensa da subjetividade conectada.

Assim, a natureza social da produção atual, seu caráter interativo e comunicativo, a intensiva circulação de informação e de conhecimento sobre tudo, ao mesmo tempo que expandem as redes do capitalismo, abrem possibilidades para a exploração e invenção de novas formas de convivência e de organização econômica para os que desejam uma vida significativa para si e para as comunidades em que convivem. O hibridismo existente cria as oportunidades de invenção, que podem ser detectadas nas novas expressões que circulam e indicam os modos inovadores de organização da produção: negócios sociais, empreendedorismo social, inovação aberta, economia da dádiva ou da abundância, prossumidor (consumidor-produtor), cocriação (como tática para a inovação), economia solidária.

Será possível escapar dos automatismos das redes do  capitalismo global?